No Jardineiro Fiel (The Constant Gardner, Alemanha-Reino Unido, 2005), um trecho de uma peça queniana chama a atenção pelo uso três atores por personagem. Quem não assistiu, pode conferir a peça na íntegra pelo vídeo abaixo.
Esse recurso é interessante, particularmente para um teatro de rua em um ambiente pouco favorável à apresentação. Pois, é evidente que três atores tornam o personagem mais visível e audível. Para além de tal obviedade, é de se reparar que três personagem em sincronia prendem a atenção do espectador, existe algo de fascinante nisso.
Aprecio o trabalho dos quenianos, mas, recentemente, assisti a "O Urso", uma adaptação de Tchekov feita pelo Grupo dos Cinco. Ali, a viúva também é interpretada por três atrizes, mas com outra proposta. Ao invés delas atuarem na sincronia do mesmo movimento, atuam na sincronia de movimentos quase que independentes. Dentro de uma atuação integrada, cada atriz incorpora uma face interior da personagem, ora se desenvolvendo de modo quase que individual, ora de modo plenamente conjugado. Assim, é colocada em cena a complexidade do espírito humano, com seus pensamentos e sentimentos, que ora são contraditórios, ora são paralelos, ora são aliados para um mesmo propósito. Curioso, ainda, é que nem sempre todas as três atrizes estão presentes, às vezes são duas, às vezes chega a ser apenas uma, e quando é uma só, não é necessariamente a mesma. Isso cria um jogo em que as faces não apenas dialogam, mas também silenciam.
Lembro daqueles desenhos animados, onde um personagem entra em conflito consigo mesmo, tendo de um lado a voz de um anjinho e, do outro, a de um diabinho. Existe uma tendência a se pensar que o ser humano é assim: existem os lados interiores (o lado bom, o lado mau, a parte que quer, a parte que acha pecado, etc) e, no centro existe o "eu verdadeiro". A viúva de "O Urso" não é nada disso. Nenhuma das atrizes interpreta o "eu verdadeiro", não existe tal coisa. O Grupo dos Cinco criou uma personagem com diversos eus. Tanto que, em certo momento da peça, despertei para um sentimento nunca experimentado antes. O normal é identificar um personagem em uma pessoa vivida pelo ator. Eu não identificava a viúva em nenhuma das atrizes em particular, e sim no jogo que elas faziam entre si.
Os personagens que contracenam com a viúva, lidam com uma única personagem, embora no palco haja mais de uma atriz. A propósito, o credor até arranca alguns risos da plateia, quando fica leve mente surpreso quando se dá conta que a personagem mudou de atriz (quero dizer, mudou sua face predominante). A vida é assim, às vezes percebemos a pessoa diferente, não necessariamente estranha, nem necessariamente contraditória, nem necessariamente "mudada", mas simplesmente com alguma variação de humor, de pensamento, ou de afeto. As diversas faces da viúva não se manifestam como um caso de personalidade múltipla, mas como a multiplicidade de uma personagem. O Grupo dos Cinco, ao falar sobre a peça, afirma:
Uma peculiaridade desta proposta é a expansão da personagem feminina – a viúva Popova – que revela seus diferentes estados de espírito através da atuação de três atrizes. Um mergulho no inconsciente da personagem, contrapondo seu temperamento aparente com seus verdadeiros desejos.É isso mesmo.
Quem não assistiu a peça, pode perguntar como as diversas faces foram agregadas em uma personagem sem parecer, ao menos no começo, diversas personagens? Na verdade, quem assistiu a peça não se faz essa pergunta, desde o início, a harmonia e intimidade das atrizes sustenta a unidade da personagem em três atrizes. Mérito de todo o elenco, inclusive daqueles que contracenam com a viúva, pois esses, na tensão do relacionamento, criam e transmitem ao público uma única viúva. Mérito da diretora, pois os tempos, ritmos e harmonias mantém não apenas a fluidez da peça, mas uma atuação orgânica em torno da viúva. Mérito do autor, que forneceu um texto rico o suficiente para permitir essa montagem. A propósito, se pode perceber que as falas das três atrizes são mais a sequência de um mesmo texto, e não tanto um diálogo interno. Não lembro de detalhes, mas me arriscaria a dizer que, em uma mesma frase, há alteração da face, algo muito corriqueiro na humanidade. Por fim, não poderia deixar de mencionar que uma das atrizes, Sandra Alencar, tem a dupla tarefa de interpretar o serviçal e uma das faces da viúva. O homem, um velho, ganha um corpo inteiro, um movimento e uma voz totalmente distintos da Sandra na viúva. Quando ela é o serviçal, vemos e não temos dúvida do homem, quando é viúva, vemos e não temos dúvida da mulher. A atriz entra e sai de cada um dos personagens de modo natural, sem causar interferência na apreciação do público. Mais uma vez mérito do elenco, mérito da diretora. Aliás, o Grupo dos Cinco é ótimo, apenas reparei na Sandra, pois ela é a única realiza essa peculiaridade.
Quem não teve a oportunidade de assistir, deve ficar atento, pois a peça já está rodando há anos e, daqui a pouco, corre o risco de sair de cartaz (se bem que a Deborah Finocchiaro sempre reapresenta o "Pois é, Vizinha"). Abaixo, deixo clipe a mais informações.
Abaixo, um clipe da peça"O Urso", Grupo dos Cinco.
Texto - Anton Tchekov
Direção - Deborah Finocchiaro
Elenco - Elaine Regina, Elison Couto, Sandra Alencar e Simone Telecchi
Para saber mais: http://www.grupodoscinco.com/?pg=6911
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PS: Uma única ressalva à montagem de "O Urso". O gesto final é algo que não precisava, que dizer, não está errado, não estraga nada. Mas, é dispensável, quase que gratuito. Ele impõe um significado à relação entre a viúva e o credor que não foi construído ao longo da peça. E a grandiosidade da peça como um todo já é suficiente para deixar o espectador pleno, sem necessitar do gesto final. (Quem assistiu à peça sabe de qual gesto estou falando; para quem não assistiu, eu não vou estragar a surpresa.)
1 comentários:
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